A ideia do blog

Quem conhece o Oiapoque conhece o encruzo dos rios, onde águas de fontes diversas se encontram, misturam-se, ampliam seus repertórios e passam a correr juntas para o mar. Esse blog trata de um encruzar de memórias. As minhas memórias de antropóloga paulistana que, em 1990, cheguei pela primeira vez nas aldeias indígenas do baixo rio Oiapoque e me aproximei das memórias daquelas populações que me acolheram.
Neste blog disponibilizo o acervo das pesquisas que realizei nas aldeias indígenas do Oiapoque (em 1990, 1991, 1992, 1993, 1998, 2001, 2006 e 2010) e em arquivos brasileiros e franceses, de forma a torna-lo acessível para aos estudantes da Licenciatura Intercultural Indígena da UNIFAP e aos pesquisadores indígenas do Museu Kuahí.

O desafio de Romildo: “me conte um pouco da nossa história”

Janeiro de 2010. Sentada num banco em frente do Posto da FUNAI da aldeia de Kumarumã ao lado de Romildo, chefe de posto, aguardávamos o chamado do sistema de radiofonia para fazermos contato com a cidade de Oiapoque. Olhávamos para o rio Uaçá, ao fundo do extenso campo alagado, uma imensidão de gramíneas verdes crescidas sob as águas que transbordaram do rio. Nossa espera era silenciosa, mas não vazia, havia uma cumplicidade na contemplação do rio Uaçá. Até que Romildo respirou fundo e rompeu o silêncio com um pedido: “então, Antonella, me conte um pouco da nossa história”.

Imediatamente pensei em recusar a prerrogativa que Romildo me concedia, como se o lugar de “anciã” ou “contadora das histórias dos antigos” não me pertencesse. Então me lembrei de meus interlocutores nesses mais vinte anos de pesquisas na região, alguns já falecidos, e de seu investimento em me transmitir sua memória. Fui me dando conta que estava irremediavelmente comprometida com a rede de transmissão de sua memória e de seus saberes. Do desafio de Romildo brota a proposta desse blog.

A demanda dos estudantes indígenas da UNIFAP

Janeiro de 2010. Fiz uma visita à UNIFAP e encontrei vários dos meus interlocutores de pesquisa nos bancos da Universidade. Alguns, já nas últimas fases, estavam planejando seus Trabalhos de Conclusão de Curso e pediram acesso aos registros que fiz em minhas pesquisas de campo, lembrando que alguns dos meus interlocutores já haviam falecido e que esse acervo seria muito importante para a preservação de sua memória. Lembrei que várias vezes lhes trouxe cópias das fotografias e gravações, entregues principalmente aos seus familiares. Mas percebi a necessidade de devolver esse acervo de maneira sistematizada e num meio que pudesse ser facilmente acessível aos acadêmicos.

Quando as memórias se encontram em redes virtuais

Tanto o desafio de Romildo quanto as demandas dos estudantes universitários me mostraram que estou inserida nas suas redes de transmissão de saberes. Essa situação não é específica desse processo de pesquisa, mas é a condição dos próprios processos indígenas de transmissão de conhecimentos e da memória coletiva. Ao compreender que as memórias coletivas sobrevivem ao serem transmitidas aos outros (como na frase de Pacha Urbano). Ao trazer esse encontro de memórias para as águas da hipermídia esse blog pretende também refletir sobre o lugar da Antropologia nesses processos.

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Um comentário sobre “A ideia do blog

  1. Parabéns pelo trabalho maravilhoso, que você vem fazendo todos esses anos conosco. Graças a esses trabalhos hoje tornam-se referência bibliográfica de qualquer estudante que pesquise sobre os povos indígenas do Oiapoque.

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