Encontro com Domingos, capitão do Curipi

Esta carta foi encontrada nos arquivos dos Padres do Espírito Santo, congregação que atuou na região contestada do Baixo Rio Oiapoque no final do século XIX. Os arquivos estão em Chevilly-Larue, França. A carta foi escrita em 20 de janeiro de 1882 pelo Padre Le Beller ao seu superior, para informar sobre sua viagem ao território contestado. Nessa viagem, o padre menciona sua estadia na vila do Oiapoque, cuja capital era Saint Georges, onde encontrou o Capitão Domingos, que o conduziu para as aldeias indígenas. Nessa viagem, o Padre Le Beller visitou aldeias no rio Curipi, Urukauá, Uaçá e Cassiporé.

Abaixo está a tradução de um trecho da carta que narra o encontro do Padre Le Beller com o Capitão Domingos, seguida da versão em francês.

carta iii carta iv

A.M.D.G.

Relatório sobre o território contestado

Caiena, 20 de janeiro de 1882.

Ao meu muito reverendo Pai,

Talvez não seja sem interesse que o senhor vai ler a narrativa de viagem de um dos seus filhos ao território contestado que, em sua solicitude pastoral, o senhor visitou em outra ocasião e fecundou de seus cuidados.

Comecei minha viagem pela vila de Oiapoque, que estava sem sacerdote há sete ou oito meses. Ali eu passei cinco semanas para dar a essa boa população a possibilidade de completar o Dever Pascal. Após uma dúzia de dias, eu já havia terminado esta localidade e esperava uma ocasião para visitar as aldeias indígenas do território contestado. Várias ocasiões anteriores haviam falhado, apesar das belas promessas que me foram feitas antes e sobre as quais, segundo todas as aparências, eu poderia contar.

Enfim, Domingos, o Capitão do Curipi, chegou um dia, pela noite, à Saint Georges, capital da vila. Ele chegou com duas canoas carregadas de crianças que não haviam sido batizadas ainda. Eu as batizei e, no dia seguinte, guardando todas as belas promessas que me haviam sido feitas, eu parti junto com essa brava gente, mesmo que suas embarcações já estavam lotadas. Eles concordaram em me conduzir, não à sua aldeia, onde nada de extraordinário demandava a minha presença, mas à Urukauá, aldeia indígena distante dois ou três dias de canoa da aldeia deles. Como salário, eu lhes dei apensa algumas libras de bacalhau, um pouco de kuak (farinha de mandioca) e tafiá. Todos sabem que os indígenas tem um pronunciado gosto pelos licores.

Partimos de Saint-Georges na terça-feira, 8 de maio, ao meio dia, chegamos no dia seguinte à casa de Firmino, no rio Curipi. Paramos lá para almoçar e para ouvir confissões, deixamos lá as crianças com suas mães e as equipes vieram com as canoas me conduzir ao meu destino. Somente no sábado 12 cheguei ao Urukauá. De início desembarquei na ilha de Jean Pierre Labonté, apelidado Bayara. As mulheres e as crianças fugiram quando me aproximei. Mas, pouco a pouco, vendo que eu não faço muito barulho, voltaram perto de mim. Eles não tinham visto um padre há quatro anos.

A.M.D.G.

Rapport sur le terrain contesté

Cayenne le 20 janvier 1882.

Mon très Révérend Père,

Ce ne sera peut-être pans sans quelque intérêt que vous lirez le récit de voyage d’un de vos enfants au terrain contesté que dans votre sollicitude pastorale, vous avez autrefois visité et fécondé de vos sueurs.

J’ai commencé ma tournée par le quartier d’Oyapock, qui était sans prêtre depuis sept ou huit mois. J’y ai séjourné par cinq semaines pour donner à cette bonne population la faculté de remplir le Devoir Pascal. Déjà, depuis une douzaine des jours, j’avais fini dans cette localité et j’attendais une occasion pour passer aux villages Indiens du terrain contesté. Déjà plusieurs occasions m’avaient fait défaut, malgré les belles promesses qui m’avaient été faites auparavant et sur lesquels, selon toute apparence, je pouvais compter.

Enfin Domingue, le Capitaine de Corripi, arrive un jour, sur le soir, à Saint Georges, Chef Lieu du quartier. Il y venait avec deux canots chargé d’enfants qui n’étaient pas encore baptisés. Je les baptise, et le lendemain, laissant de côté toutes les belles promesses qui m’avaient été faites, je pars avec ces braves gens, bien que leurs embarcations fuissent déjà encombrées. Ils consentaient à me conduire, non à leur village où rien d’extraordinaire n’appelai ma présence, mais à Rocawa, autre Village Indien distant du leur de deux ou trois journées de canotage. Comme salaire, je les donnai seulement quelques livres de Morue, un peu du Couac (farine de Manioc) et du Tafia. Tout le monde sait que les Indiens ont un faible assez prononcé pour les liqueurs.

Partis de St.Georges le Mardi 8 Mai à Midi, nous arrivions le lendemain à la case de Firmine, dans la Rivière de Corripi. Nous y faisons halte pour déjeuner et pour attendre le Perdant, car on laisse là les enfants avec leurs mères, et les équipages viennent avec les canots me conduire à destination. C’est seulement le Samedi 12 que je suis arrivé à Rowcaua. Je débarque d’abord dans l’illet de Jean Pierre La Bonté, surnommé Bayara. Les femmes et les enfants fuient à mon approche. Mais peu à peu, voyant que je ne fais pas trop de tapage, ils reviennent près de moi. Ils n’avaient pas vu de prêtre depuis quatre ans.

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A ladainha Karipuna

A ladainha Karipuna é uma oração entoada em momentos importantes para o grupo e, por isso, requer respeito e atenção. Pode ser rezada em momentos festivos, como as festas de santos católicos, ou em momentos de luto, pela alma de pessoas falecidas.

É realizada de forma ritualizada: com um mestre-tambor ao centro, ladeado por duas bandeiras vermelhas, diante da imagem do santo homenageado e com as luzes da capela acesas. O oferecimento da ladainha é adaptado à situação: “ladainha que rezamos, ao Divino Espírito Santo oferecemos’’, ou, “para alma de finado fulano oferecemos”, etc.

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A ladainha Karipuna é entoada em latim, com alguns trechos em português. É um exemplo da potência da memória oral, pois foi transmitida oralmente através de várias gerações. Provavelmente, foi aprendida pelos antepassados Karipuna que estiveram em contato com missões jesuíticas no Baixo Oiapoque, no século XVIII.

A ladainha Karipuna se inicia com a prece Kyrie em latim, seguida de quarenta estrofes de entoação à Santissima Trindade acompanhadas pelo refrão miserere nobis, tendo depois a evocação de quarenta e dois títulos de Nossa Senhora acompanhados pelo refrão ora pro nobis e encerrada com o Agnus Dei e uma oração à Virgem Maria.

Nos anos 1990, diziam que o Sr. Tangahá era o único que sabia entoar a ladainha por completo, mesmo que muitos acompanhassem o refrão e soubessem agir da maneira apropriada – os momentos de ajoelhar-se, soltar rojões, etc…
O Sr.Tangahá aprendeu a rezar a ladainha com o Capitão Teodoro Fortes e com seus avós. Depois do falecimento do Capitão, o pajé Gomes Forte e Alexandre Marcolino dos Santos também rezavam a ladainha, antes que Tangahá começasse a faze-lo. Assim como Tangahá era respeitado por ter aprendido a ladainha diretamente do capitão Teorodo, aqueles que o substituem atualmente são respeitados por te-la aprendido diretamente de Tangahá.

Ouça um trecho da Ladainha:

Filme “Criando Corpo em Kumarumã” será exibido nesta terça-feira, 19/11, as 9 hs na UFSC

A exibição está na programação do Colóquio “Reflexões sobre Pesquisa Antropológica e Políticas Públicas no INCT Brasil Plural”, que será realizado nessa semana na UFSC, na sala 110 do Departamento de Antropologia. Uma primeira versão do filme foi elaborada em julho de 2013, apresentada às famílias de Kumarumã e aos alunos do Curso de  Licenciatura Indígena da UNIFAP (imagem abaixo), cujas sugestões e críticas foram incorporadas em setembro deste ano para a edição da versão final que será agora apresentada.

DSC01365O filme foi produzido pelo INCT Brasil Plural e apresenta cenas cotidianas das crianças Galibi-Marworno da aldeia de Kumarumã, Terra Indígena Uaçá, município de Oiapoque/AP. O roteiro foi elaborado por Antonella Tassinari em conjunto com o cacique Paulo Roberto Silva e com Manuel Severino dos Santos, para mostrar aspectos importantes da educação para os Galibi-Marworno: os cuidados com a gravidez, parto, puerpério e as estratégias para produzir o corpo das crianças. “Criar o corpo da aldeia”, desenvolver e amadurecer o corpo, são processos que as crianças vivenciam através das brincadeiras e na aprendizagem das habilidades que garantem sua saúde e autonomia. Ao expor uma pedagogia própria Galibi-Marworno, o filme dá subsídios para pensar nos limites das políticas universalistas de educação e proteção à infância.

Criando Corpo em Kumarumã, 18 min, 2013
Produção, Imagem e Direção: Antonella Tassinari
Roteiro: Antonella Tassinari, Paulo Roberto Silva e Manuel Severino dos Santos
Edição: Marcos Albuquerque
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